Demência é lembrada mundialmente neste 21 de setembro. Cuidados com a saúde podem ajudar a retardar o avanço da doença.
Foi a diferença no padrão de lavar a louça que primeiro chamou a atenção da professora Janete Cristina Baes Correia. Depois veio a dificuldade da mãe, Floripes Garzon Baes, então com 65 anos, de fechar o cadeado do portão. Em outra ocasião, o tempo com a chave na mão em frente à porta. Ela decidiu procurar um médico e descobriu que as mudanças estavam relacionadas à doença de Alzheimer.
"Todo mundo se liga muito no esquecimento, só que esquecimento você pode ter em qualquer idade. O que mais me chamou atenção na minha mãe foi a dificuldade de raciocínio em coisas simples", contou a professora. "A gente pedia para ela fazer algo e ela não entendia, tínhamos que repetir várias vezes."
O declínio cognitivo é uma das consequências da enfermidade lembrada mundialmente nesta quinta-feira (21), Dia da Conscientização sobre a Doença de Alzheimer.
Diagnóstico
A doença está associada ao acúmulo da proteína beta-amilóide entre os neuronios e acomete principalmente idosos, mas há casos em pessoas mais jovens. Atualmente, o diagnóstico é clínico, embora exames como tomografia e ressonância possam ser solicitados de forma complementar.
"O diagnóstico é baseado em uma perda de memória progressiva e no prejuízo de algum outro domínio, como a linguagem", afirmou o psicogeriatra Marcos Hortes Nisihara Chagas, professor do curso de medicina da UFSCar.
"A principal alteração é de memória. Há um prejuízo de memória e ele vai levando a prejuízos de outras funções cognitivas. Às vezes a pessoa se perde, falta orientação, e depois a pessoa vai ter um prejuízo funcional, então ela não vai mais conseguir fazer o que fazia."
Fatores de risco
Há fatores genéticos. Os dois irmãos de Floripes, por exemplo, também foram diagnosticados com a doença. Um dos pontos é a idade, o risco cresce com o passar dos anos, mas há outros elementos que podem aumentar a deposição da proteína ou acelerar o aparecimento das alterações clínicas.
"Hipertensão arterial, diabetes, colesterol aumentado, diminuição da atividade física, isso tudo é fator de risco", alertou Chagas. Daí exercícios físicos, alimentação adequada e controle da pressão serem considerados formas de se proteger e ter um envelhecimento mais saudável.
A baixa escolaridade também é um fator. "Quando eu tenho baixa escolaridade, provavelmente minha reserva cognitiva é menor. Se minha escolaridade é alta e esqueci alguma coisa, vou anotar, então esse problema de memória demora mais a aparecer."
Não há cura
O tratamento para a alteração cognitiva é feito principalmente com remédios. Segundo Chagas, eles podem fazer com que a doença progrida mais lentamente, mas ainda não são capazes de estacioná-la.
"Não existe um tratamento para diminuir a deposição de beta-amilóide. A gente vai aumentar a acetilcolina, que vai melhorar a cognição e talvez melhore o prejuízo cognitivo, mas não muda a progressão da doença."
Há outro lado que possui mais opções de tratamento: a alteração comportamental. Os pacientes podem ter depressão, ansiedade, ficar muito agitados e irritados. Sessões de musicoterapia e algumas danças, dentre outras atividades, podem ajudar a cuidar desses quadros.
Volta a ser criança
Além das mudanças que a doença provoca no paciente, também há o impacto na família e a sobrecarga dos cuidadores. O estresse prolongado daqueles que cuidam do doente pode levar a transtornos de ansiedade e depressão.
"O adulto, sua mãe, que sempre foi sua referência, volta a ser criança, só que uma criança grande, então você tem que trabalhar bem o psicológico para não se chocar", disse Janete. "A gente tem que entender a doença e tratar dando a melhor qualidade de vida possível, muito amor e carinho."