Falta de detecção do zika durante a gravidez e no nascimento do bebê, acompanhamento insuficiente no pré-natal e possibilidade de infecção por outras doenças são alguns dos motivos apontados pelos médicos.
Desde que os casos de zika e microcefalia explodiram no Brasil, a confirmação da relação entre a malformação e o vírus ocorreu em 20% das suspeitas enviadas ao governo. Neste ano, a taxa é de 9,3%: são 4.221 notificações e 391 confirmações.
De acordo com o Ministério da Saúde, já é esperado que as investigações levem um certo tempo para serem concluídas. Deve-se considerar que diversos exames precisam ser feitos para a efetividade do diagnóstico, incluindo de imagem e laboratoriais.
Sequência ideal
Os médicos Antonio Bandeira, coordenador do Comitê de Arboviroses da Sociedade Brasileira de Infectologia, e Marco Aurélio Palazzi Sáfadi, da Sociedade Brasileira de Dengue/Arboviroses, explicam que para garantir uma confirmação de que as alterações no crescimento e desenvolvimento normal do bebê foram causadas definitivamente pela zika é necessário um conjunto de informações.
O primeiro passo é o diagnóstico de que a mãe realmente foi infectada. Para isso, a mãe precisa desenvolver os sintomas e fazer os exames necessários: sorológico e molecular (PCR). "Se você tem a informação durante a gravidez, já no momento em que a mãe está com o vírus, é mais fácil. Mas, muitas vezes, a infecção é silenciosa e não tem sintomas", diz Sáfadi.
Depois, caso a infecção seja detectada, é preciso acompanhar o crescimento do feto e seu desenvolvimento. O ultrassom pode ajudar a ver se há algum problema. Os médicos chamam a atenção para a importância do pré-natal.
As dificuldades
Como aponta Sáfadi, muitas vezes a mãe é assintomática. A suspeita vai surgir quando o vírus nem está mais no organismo da gestante, mas só quando o bebê passa a apresentar as malformações.
Sem a possibilidade de fazer o teste em PCR e/ou sorologia, surgem diversas possibilidades: existem outras doenças que causam as mesmas alterações no feto, como a sífilis, a toxoplasmose e a infecção por citomegalovírus.
"A gente sabe que a microcefalia pode ter várias causas. Outros casos têm a ver com malformações congenitas, hereditárias, e outras situações têm a ver com outras infecções como sífilis", avalia Bandeira. Ele diz, no entanto, que o número dos casos de microcefalia aumentou muito após o início da zika.
A importância do cordão umbilical
Se o bebê nasceu sem a realização das etapas anteriores, os médicos chamam a atenção para a importância de detecção do vírus no momento do nascimento. "É um momento oportuno para você colher o exame. Mesmo assim, a amostra pode não ser conclusiva", explica Sáfadi.
Bandeira lembra que muitos estados não têm acesso ao PCR, apenas à sorologia. Segundo ele, o molecular é mais preciso e seguro, enquanto a sorologia pode dar um falso positivo ou não acusar o vírus.