Ainda não apareceram evidências irrefutáveis de que o zika tenha sido a causa única de ocorrências de microcefalia, mas alguns estudos já chegam perto de estabelecer uma relação entre o vírus e a atrofia cerebral.
Ao definir a ocorrência de microcefalia em áreas com proliferação do zika vírus como situação de emergência, a Organização Mundial da Saúde (OMS) fez mudar de patamar o duelo contra o mosquito Aedes aegypti. O alarde só pode ser comparado ao que aconteceu em 2014, no auge do surto do ebola.
Saber se o zika é a causa única das ocorrências de microcefalia é fundamental. Só assim será possível dar início ao desenvolvimento de vacinas e medicamentos. Até o momento, dos 4.000 registros de microcefalia notificados no Brasil, o país que abriga mais de 90% dos casos suspeitos da doença associados ao zika, apenas dezenove foram comprovados em laboratório.
Em dois deles, o genoma foi encontrado em amostras de líquido amniótico de mulheres grávidas de fetos microcéfalos. Publicado em novembro, o achado foi conduzido pelo Instituto Oswaldo Cruz, no Rio de Janeiro. Em janeiro deste ano, o Centro de Controle de Doenças (CDC) dos Estados Unidos atestou a presença de sinais do zika em quatro amostras de tecido cerebral de bebês microcéfalos brasileiros. Na semana passada, doze infecções foram confirmadas pelo Laboratório Evandro Chagas, no Pará, em parceria com o CDC, por meio de exame feito com amostras do líquido que circula no sistema nervoso central.
Ainda assim, a instituição americana recomenda a continuação das investigações para a comprovação definitiva. Diz o infectologista Luis Fernando Aranha Camargo, gerente de pesquisa clínica do Instituto Israelita de Ensino e Pesquisa Albert Einstein, em São Paulo: "Não há dúvida de que os dados biológicos sobre a relação entre o zika e a microcefalia já existem. Eles são fundamentais, mas insuficientes para comprovar que o vírus possa realmente causar a doença."
A primeira evidência de que o zika pode atingir o cérebro foi descrita em 1952 por uma dupla escocesa, o virologista George Dick e o entomologista Alexander Haddow. O experimento consistiu em injetar o vírus no abdomen de ratos e observar a sua ação no corpo dos animais. O agente seguiu direto para o sistema nervoso central, provando ser capaz de infectar o cérebro. Acreditava-se que o zika jamais afetaria o ser humano, e os trabalhos foram abandonados.
Tenta-se, agora, continuar a linha de estudo dos escoceses, com algumas indagações seminais, ainda sem resposta. Como o vírus age nas células neurológicas do cérebro? De forma direta? Ou interagindo com o sistema imunológico e provocando uma resposta inflamatória capaz de destruir os neuronios?
Além disso, a cada dia surgem novíssimas questões. Na semana passada, autoridades de saúde dos Estados Unidos divulgaram o registro do primeiro caso de transmissão sexual do vírus. Pesquisadores do Centro Médico da Universidade do Texas em Galveston avaliam a possibilidade de o zika ter se modificado com o tempo. Por uma questão de sobrevivência, ele hoje conseguiria se multiplicar mais rapidamente no sangue, o que facilitaria a sua entrada pela placenta até chegar ao cérebro do feto e danificar os neuronios.