Um sistema de alta qualidade para pacientes com câncer deve ser acessível, centrado no paciente e baseado em evidências científicas e medidas de qualidade.
Foi Martin Luther King Jr. quem afirmou que de todas as formas de desigualdade, a injustiça no cuidado à saúde é a mais chocante e desumana. Políticos em campanha costumam lembrar muito desse assunto e até convencem seus eleitores.
No Brasil, esse direito consta em nossa Constituição. No entanto, existe um notável descompasso entre a pressão da população por uma melhor assistência médica e a capacidade dos sistemas de saúde em se adaptar e incorporar novas e eficientes tecnologias. A resposta para essa questão está na incorporação da qualidade na assistência.
O que é qualidade na saúde?
De acordo com a Agência de Pesquisa e Qualidade em Saúde dos Estados Unidos, qualidade é fazer coisas certas, no tempo certo, do modo certo, para a pessoa certa e obter os melhores resultados possíveis. Melhor resultado não é garantia de sucesso, é garantia de que o melhor foi feito dentro do estado atual de conhecimento.
O Instituto de Medicina, em 2001, publicou o livro Crossing the Quality Chasm visando melhora na qualidade da assistência, baseada em liderança. Nele são descritas seis medidas que devem ser buscadas:
Efetividade: prover serviços baseados em conhecimento científico
Segurança: buscar evitar danos em pacientes
Assistência centrada no paciente: provendo cuidado com respeito e responsabilidade
Tratamento realizado em tempo adequado: reduzindo esperas e atrasos potencialmente perigosos
Eficiência: evitando desperdícios de equipamentos, suprimentos, ideias e energia
Equanimidade: provendo cuidado que não varie em qualidade devido a características como gênero, etnia, local de moradia ou condição socioeconomica
Premissas de um sistema de alta qualidade
Para o Instituto de Medicina, um sistema de alta qualidade para tratamento de pacientes com câncer deve ser acessível e centrado no paciente, ter uma grande interação médico-paciente, ter o suporte de uma equipe multiprofissional e ser baseado em evidências científicas, medidas de qualidade, medidas contínuas de melhoria e uso de sistemas informatizados.
O conceito de Cancer Center na oncologia
Especificamente em oncologia, o conceito de Cancer Center foi ampliado, e o Instituto Nacional do Câncer dos Estados Unidos define um Comprehensive Cancer Center como uma instituição que presta cuidados diretos de saúde a pacientes oncológicos, mas também realiza pesquisa básica e clínica, participa de programas de controle da doença e de educação para a população.
Não existem dois pacientes iguais, mas todos desejam e devem receber a melhor assistência multiprofissional com o objetivo de ter a melhor chance de cura e de reabilitação. É preciso que o paciente seja cuidadosamente avaliado por uma equipe multiprofissional que saiba aplicar o conhecimento baseado em evidências de forma integrada.
Vários estudos mostram que a discussão de casos em um Tumor Board, reuniões com equipes multidisciplinares, melhora a qualidade e os resultados da assistência. Hoje, o médico não pode trabalhar isoladamente. Não há como oferecer assistência oncológica de qualidade sem um alto grau de organização, sem experiência e recursos adequados.
Resultados de tratamento são melhores em ambientes especializados, principalmente quando um alto volume de pacientes é tratado nesses centros. A utilização dessas ferramentas associa-se a melhores resultados funcionais, menos complicações, menos desperdício, menor custo do tratamento e melhora da satisfação dos pacientes.
É preciso, cada dia mais, ter consciência de que exames diagnósticos e tratamentos onerosos podem não ser necessários e muitos não são necessariamente os melhores. A medicina exige parcimonia e um juízo crítico baseado em evidência, experiência, bom senso e seriedade.