Afora a correta eliminação de alimentos prejudiciais à saúde, o que se vê são elucubrações sugerindo o emagrecimento por rearranjos alimentares.
Há mais de duas décadas minha rotina diária contempla o tratamento de obesidade e sobrepeso, estudos sobre estas questões e as circunstâncias que se relacionam com este universo.
Estabelecer uma dieta como padrão de referência universal é ao menos discutível. Sempre haverá algum desrespeito cultural, geo-topográfico ou mesmo na individualidade das decisões de gestão de vida.
A dieta mediterrânica, única associada estatisticamente com maior longevidade, não suprime ou prepondera qualquer grupo alimentar. Em uma lógica absolutamente simples, sem alimentos processados e privilegiando gorduras insaturadas, grãos sem refino, verduras, legumes, frutas secas, castanhas e carnes brancas, seus adeptos angariam maior expectativa de vida. Se consumida desde a mais tenra idade provavelmente proteja do ganho ponderal, mas se iniciada por ocidentalizados glutões a perda de peso não ocorrerá.
Dietas cartesianas para emagrecimento
Foram criadas: dieta sem carboidrato, com pouco carboidrato (Low Carb), jejum prolongado (jejum intermitente), de alimentos inteligentes, apenas alimentos crus, dietas sem glúten, sem lactose e muitas outras. Em algumas destas versões a divisão das porções a cada três horas é imposição quase militar.
Engenharia alimentar esperançando o obeso
São fabricados inúmeros itens: barras de cereais com fibras, castanhas e frutas secas; leites e derivados sem gordura e mesmo sem lactose; refrigerantes e outros itens sem açúcar. Envelopes supostamente contendo todos os itens fundamentais para suas necessidades nutricionais diárias, com substâncias sacietogenas para abstrair sua fome.
Algumas insuportáveis, outras insustentáveis
É inegável que a utilização das dietas sem carboidratos ou low carb são fisiologicamente alicerçadas. Esses conceitos mostram-se úteis em alguns contextos patológicos, contudo, a primeira se mostra intolerável quanto à palatabilidade a curto prazo, enquanto a low carb é enfadonha o suficiente para afastar a maior parte de seus necessitados adeptos em alguns meses.
Se o jejum prolongado traz benefícios em algumas doenças, especialmente as de ordem inflamatória, o faz provavelmente pelo período de silêncio ou abrandamento metabólico gerado pelo jejum, mas seguramente não provoca perda de peso sustentada.
Portadores de doença celíaca, menos em algumas outras formas de intolerância ao glúten, carecem da retirada deste item da dieta. Porém, se a pretensão ao abstrair essa proteína da dieta é abandonar o alto peso, não o faça. Não emagrece. Raciocínio semelhante seja feito para os intolerantes à lactose.
Onde erramos?
Os centros da fome e saciedade definitivamente modificados por disruptores endócrinos (substâncias ingeridas ou inaladas) é uma causa provável. Equívocos dietéticos e comportamentais a caminho da vida adulta gerando novo status no famigerado termostato é outra explicação.
O açúcar é acusado de induzir maior número de células gordurosas (provavelmente apenas na primeira infância), assim como incitar estas células a uma maior produção de gorduras. De outra forma, o mesmo é capaz de gerar respostas em nosso cérebro relacionadas ao prazer.
O fato é que a dieta como recurso único para o tratamento da obesidade se aproxima do completamente falível. Há algumas semanas uma minuciosa revisão sobre obesidade, elaborada pela Endocrine Society, foi disponibilizada e em um dos trechos lê-se: "A falta de opções efetivas para a redução do peso em longo prazo amplia a enormidade desse problema. Os indivíduos que completaram com sucesso os programas comportamentais e dietéticos de perda de peso recuperaram a maior parte do peso perdido."
É preciso que haja o entendimento de que a melhor maneira de emagrecer é sempre não engordar.
Ou pior ainda: o psiquiatra
A maior sequela dos arranjos alimentares que prometem, mas não entregam perda de peso mantida é a descrença desenvolvida pelos pacientes para uma boa rotina alimentar. Ou pior ainda, a auto-culpabilização do fracasso.
Não existe um só estudo científico de longo prazo demonstrando perda ponderal induzida ou melhorada pela divisão de determinado número de calorias em 3 ou 30 vezes ao dia, nem com exercícios isoladamente gerando magreza.