Em mês de conscientização sobre prevenção do câncer de mama, vídeo circula nas redes com informações falsas, citando médico como fonte.
Drauzio Varella, o médico mais popular do Brasil, está bastante chateado. Um dia antes de falar com a BBC Brasil, ele recebeu, via WhatsApp, diversas cópias de um vídeo que citava seu nome. "É uma dessas teorias conspiratórias horríveis. Que horror.", diz.
No vídeo, que também circula no Facebook, uma mulher não identificada afirma que, segundo Varella, os casos de câncer de tireoide em mulheres estariam aumentando por causa da realização de mamografias e radiografias odontológicas. Ela também critica profissionais de saúde que realizam esses exames por não oferecerem aos pacientes protetores de chumbo para a garganta.
"Estou entrando em contato com uma advogada especialista em internet para tomar providências. Passamos tantos anos insistindo que as mulheres façam mamografia anualmente a partir dos 40 anos, e uma pessoa infeliz dessa usa meu nome para assustar as mulheres", diz o médico.
O câncer de tireoide realmente aumentou?
Segundo o Instituto Nacional do Câncer (Inca), a taxa de incidência desse tipo de câncer tem aumentado cerca de 1% ao ano na maioria dos países do mundo. Mas isso se deve ao fato de que o exame que detecta um tumor está sendo realizado com mais frequência. "Uma possível explicação para a tendência de aumento das taxas de incidência é o aumento do uso de ultrassom e biópsia guiada por imagem para detecção de doença subclínica", afirma o instituto.
A taxa de mortalidade do câncer de tireoide, no entanto, está caindo na maioria dos países, diz o Inca, provavelmente por causa da melhoria do tratamento. No Brasil, o instituto estima que sejam diagnosticados 6.960 novos casos neste ano, 1.090 em homens e 5.870 em mulheres.
Mamografias e raios-X trazem risco de câncer?
Em 2015, a Comissão Nacional de Mamografia, formada pelo Colégio Brasileiro de Radiologia, pela Sociedade Brasileira de Mastologia e pela Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia, divulgou uma nota afirmando que "o risco de indução de câncer de tireoide após uma mamografia é insignificante". Trata-se de menos de 1 caso a cada 17 milhões de mulheres entre 40 e 80 anos que realizam mamografia anualmente.
"A dose de radiação para a tireoide durante uma mamografia é extremamente baixa (menor que 1% da dose recebida pela mama). Isto é equivalente a 30 minutos de exposição à radiação recebida a partir de fontes naturais."
Por que o protetor de tireoide não é usado pelos pacientes que fazem esses exames?
A Comissão Nacional de Mamografia afirma que não recomenda o uso do protetor de tireoide porque ele "pode interferir no posicionamento da mama e gerar sobreposição, fatores que podem reduzir a qualidade da imagem, interferir no diagnóstico e levar à necessidade de repetições de exames". A decisão está de acordo com a posição da Agência Internacional de Energia Atomica (AIEA), da ONU.