Dois terços das mutações que dão origem a tumores malignos são provocadas por falhas no processo de cópia do DNA e são inevitáveis, indica estudo.
Erros imprevisíveis durante o processo de cópia do DNA são responsáveis por dois terços das mutações que podem levar ao desenvolvimento de câncer, revela um estudo divulgado na revista Science. Coordenada por cientistas da Universidade Johns Hopkins, nos Estados Unidos, a pesquisa analisou dados de 4,8 bilhões de pessoas, mais da metade da população mundial, de 69 países diferentes.
"É bem conhecido que fatores ambientais, como fumar, devem ser evitados para diminuir o risco de câncer. Porém, não é bem conhecido que, cada vez que uma célula normal se divide e copia seu DNA para produzir duas novas células, ela comete vários erros", afirma Cristian Tomasetti, professor de bioestatística no Centro para Câncer Johns Hopkins Kimmel.
Para os 32 tipos de câncer analisados, os resultados mostram que essas falhas acontecem aleatoriamente durante o processo de duplicação das células. As outras mutações são frutos de fatores externos, como ambiente ou estilo de vida, que são responsáveis por 29% das mutações, ou fatores hereditários, que estão presentes em 5% dos casos. Cada vez que uma célula se divide, três erros são cometidos aleatoriamente na duplicação do DNA. Geralmente, eles não são prejudiciais, porém, se ocorrerem duas ou mais mutações críticas, o câncer pode aparecer.
Os resultados encontrados estão de acordo com dados da organização britânica Cancer Research UK, que mostra que 42% dos casos de câncer podem ser prevenidos ao evitar hábitos e ambientes nocivos à saúde. Segundo o médico Bert Vogelstein, outro autor do estudo, o foco da pesquisa está nos outros 58% dos casos. "É parte da evolução. Não podemos fingir que esses erros não existem", afirma. Essas falhas explicam por que algumas pessoas que levam uma vida saudável desenvolvem a doença.
Cenário mundial
No caso do câncer de pâncreas, 77% das mutações que levam ao surgimento de tumores são provocadas por falhas aleatórias, enquanto 18% se devem ao ambiente e ao estilo de vida da pessoa e os outros 5% à hereditariedade. O câncer de pulmão, por sua vez, apresenta um cenário completamente diferente, em que 65% de todas as mutações são provocadas por agentes externos, como fumar.
Os cientistas afirmam que, no caso de tipos de câncer que têm pouca influência das mutações aleatórias, a prevenção primária, como evitar fatores ambientais que podem levar ao desenvolvimento do câncer, ainda é a maneira mais eficiente de evitar que a doença apareça. Porém, para tipos de câncer nos quais as mutações são causadas principalmente por falhas imprevisíveis, a prevenção secundária, que inclui detectar o tumor enquanto ele ainda pode ser curado, é a única opção.