Paciência e repetição são as palavras-chave para o aprendizado dos meninos e meninas diagnosticados com o crânio menor do que o normal.
O caminho não é fácil, mas para quem tem a sorte de receber o tratamento e os incentivos adequados desde o nascimento, a vida com microcefalia pode ser longa, saudável e feliz. Na semana passada, um executivo das Nações Unidas sugeriu o aborto nesses casos e o Ministério da Saúde confirmou 404 casos da má-formação no país, a maioria no Nordeste.
Aos 6 anos, Micaelly tem uma rotina de estudos e brincadeiras, como qualquer criança na sua idade. Aos poucos, aprende a identificar as letras e a escrever o nome, hoje seu principal desafio.
Da síndrome, diagnosticada aos 12 dias de vida, Micaelly só sabe que tem a cabeça pequena, condição que não a impede de ter uma vida social ativa ao lado da mãe, Fernanda Silva Santos, de 23 anos.
Dedicada nos exercícios, a menina só evolui. Corre, pula, toma banho, se veste, escova os dentes, faz as refeições, penteia o cabelo, dança. Tudo sozinha. "Eu aprendi a deixar ela fazer, deixar tentar. Esse é um dos segredos do tratamento. Se sempre tomamos à frente das coisas, eles não aprendem, não desenvolvem", ensina Fernanda.
No dia a dia, repetição e paciência são palavras-chave. As orientações repassadas pela equipe multidisciplinar da Apae São Paulo, onde Micaelly aprende a ter autonomia, são levadas para casa e repassadas à exaustão. "A grande estimulação não ocorre no consultório, mas no meio da família, a partir das tarefas mais simples, como segurar um lápis, um garfo ou um copo dágua", explica a fonoaudióloga Angela Tampellini.
As sessões de estímulo, muitas realizadas em conjunto com a terapeuta ocupacional Monaísa de Lima, trabalham também a interação por meio do contato com outras crianças.
Maria Victória, de 4 anos, tem diagnóstico de microcefalia derivada de infecções graves desenvolvidas ainda no útero, a toxoplasmose e a citomegalovirose. "Até os dois anos de idade ela não sentava, não engatinhava, não ficava de pé. Morávamos em Minas e viemos para cá atrás de respostas. Só recebi a confirmação da microcefalia em São Paulo. Foi quando conseguimos iniciar o tratamento e a nossa vida mudou. A evolução dela é incrível", conta a mãe, Kelly Francisca de Oliveira.