Medida de fracionamento foi cogitada pelo Ministério da Saúde em março. Agora, Fiocruz avalia se eficácia de dose com menos cópias do vírus se mantém a longo prazo.
A Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz) testará a eficácia de uma dose diluída da vacina da febre amarela. Trata-se da segunda parte de um estudo realizado pela primeira vez em 2009, quando 900 homens receberam a vacina diluída pela primeira vez. Agora, a entidade está avaliando se anticorpos contra o vírus se mantêm a longo prazo. A iniciativa tem financiamento da organização britânica Wellcome Trust e apoio da Organização Mundial de Saúde.
O trabalho de campo está sendo concluído, mas a Fiocruz fará ainda os testes laboratoriais para concluir os estudos. "Se esse grupo se mantiver protegido, isso vai dar uma confiança de que doses reduzidas permitem imunidade a longo prazo", diz Reinaldo Menezes, consultor da Fiocruz e coordenador científico dos testes. A perspectiva é que os resultados sejam divulgados até o final do ano.
Em março, o Ministério da Saúde avaliou adotar um método de fracionamento da vacina no Brasil em face da demanda pelo imunizante. A medida, no entanto, não chegou a ser adotada. "O fracionamento não é trivial e tem que ser feita toda uma mudança na produção", diz Menezes.
Na diluição, há a presença de menos cópias do vírus na vacina; já no fracionamento, a vacina é administrada em uma dose menor. O princípio da eficácia, contudo, é o mesmo. Quando o Ministério da Saúde cogitou o fracionamento, uma das questões levantadas era sobre o tempo de eficácia, já que os estudos com a dose diluída haviam acompanhado indivíduos por 10 meses e a vacina protege por 10 anos.
Diluição garantiu imunidade
Na primeira parte do estudo, feito em 2008 e 2009, 900 homens receberam a vacina diluída. Com os resultados, pesquisadores atestaram a eficácia do imunizante em uma diluição que pode chegar a 50 vezes menor que a dose usualmente aplicada. "Essa diluição significa que há 50 vezes menos cópias do vírus", explica Menezes.
As pessoas que receberam a vacina nessa primeira fase foram acompanhadas por 10 meses, e a proteção se manteve. Agora, com os testes de 2017, será possível analisar se o imunizante é capaz de proteger indivíduos por um tempo maior. A Fiocruz planeja novos estudos para 2018, dessa vez, com testes da vacina diluída em crianças.
Medida ajudou a combater surto no Congo
No ano passado, os estudos de diluição realizados na Fiocruz ajudaram a Organização Mundial de Saúde a combater surto de febre amarela na República Democrática do Congo. Por recomendação da OMS, a vacina de 0,5 ml foi fracionada e o país aplicou uma dose 5 vezes menor: de 0,1 ml.
"Já que atestamos que uma diluição de até 50 vezes era eficaz, a conclusão é que um fracionamento em cinco vezes poderia ser utilizado para ampliar a oferta da vacina em face da emergência", explica Menezes. Com a recomendação da OMS, o país conseguiu imunizar 7 milhões de pessoas em duas semanas em 8.000 postos de vacinação.