Além das terapias, também houve mudança na postura médica no tratamento do câncer. Agora, a estratégia é definida por uma equipe multidisciplinar.
Há meio século, os pacientes com diagnóstico de câncer eram tratados com as poucas armas disponíveis: cirurgia, radioterapia ou quimioterapia. Geralmente, a decisão sobre os tratamentos propostos era tomada pelo médico e estava focada no melhor resultado esperado em termos de chance de sobrevida, independentemente de qualquer outra consequência.
Mas, na verdade, pouco se conhecia sobre a biologia da doença e pouco se podia oferecer para a maioria dos pacientes. Apenas um em cada três casos de câncer era curado.
Os progressos no tratamento
Nos anos 1960 até 1990 registraram-se inúmeros progressos com novas técnicas cirúrgicas, com destaque para as cirurgias oncológicas regradas baseadas em conhecimento da disseminação tumoral. Os cirurgiões dessa época avançaram muito nas reconstruções, possibilitando uma sobrevida com menor morbidade. Também na radioterapia houve ganhos com novos equipamentos, mais precisos e capazes de tratar melhor, produzindo menos sequelas. Na quimioterapia, algumas drogas novas surgiram e foram combinadas, trazendo maior eficácia aos tratamentos.
Comparação entre tratamentos
O maior salto, no entanto, foi o fato de que os resultados de diferentes tratamentos passaram a ser comparados e questionados. Velhos dogmas foram quebrados. Agora, as decisões terapêuticas passaram a ter mais base científica e os médicos a discutir casos entre especialidades. Nessa época ocorreram melhoras significativas dos resultados, um em cada dois pacientes era curado.
Progressos extraordinários
A partir dos anos 1990, os progressos foram extraordinários. Cirurgiões tornaram-se cada vez mais especializados e passaram a usar novos instrumentos como a endoscopia, a cirurgia videoassistida e, mais recentemente, a robótica. A radioterapia progrediu de forma exponencial. A oncologia clínica mudou drasticamente pelo aparecimento de novas drogas, novas combinações e, mais recentemente, com as drogas-alvo e imunomoduladoras. Não há mais como exercer a oncologia sem especialização fina, sem cooperação entre especialistas.
Maior precisão
Pacientes oncológicos atuais recebem o benefício de diagnóstico e estadiamento mais precisos, terapêuticas mais baseadas na história natural da doença e em resultados de estudos criteriosos. Não há mais campo para o médico individual decidir o tratamento. São equipes multiprofissionais, lideradas por um ou outro de seus participantes, que coordenam o tratamento.
Hoje curamos dois de cada três pacientes. Eles participam da decisão porque agora têm acesso irrestrito a informações. Têm oportunidade de questionar suas equipes médicas, e as equipes estão cada vez mais preparadas para discutir opções, rever rumos e adotar novas alternativas.
Conhecimento foi o grande diferencial
A medicina baseada em evidência não é atual. Sempre se utilizou a melhor evidência disponível para a tomada de decisões. O que mudou é o volume de conhecimento que norteia a prática. Isto fez com que a prática passasse de individual do médico para uma prática atual de equipes médicas especializadas. O entendimento da complexa literatura atual requer a participação de muitos especialistas e uma reflexão profunda e orquestrada quanto à hierarquização das evidências.
As certezas e intransigências do passado deram lugar a uma nova postura médica, onde a observação cuidadosa e em tempo real da evolução dos pacientes e a abertura para a consideração de críticas construtivas permitem rever planos de tratamento, incorporando condutas que possam beneficiar os pacientes.