Congresso nos Estados Unidos trouxe novidades que deixaram os médicos entusiasmados.
Atualmente, em plena época molecular, em avançados centros de pesquisa e com apoio financeiro de peso, o mundo talvez esteja assistindo à consolidação de um novo caminho para a cura do câncer: a imunoterapia. Segundo médicos brasileiros que estiveram na Asco (American Society of Clinical Oncology), em Chicago, a conferência mostrou que tal tratamento já é um dos pilares no combate a essa doença dramática.
São os casos dos oncologistas Marcelo Cruz, do Centro Avançado de Oncologia na Beneficiente Portuguesa (SP), e Fábio André Franke, coordenador do Centro de Alta Complexidade em Oncologia do Hospital de Caridade de Ijuí (RS). Entusiasmados, eles cogitaram até que, a partir dos novos conceitos da imunoterapia, se possa chegar a uma vacina contra o câncer.
"Caso se consiga encontrar uma terapia que atue no sistema imunológico e ele tenha uma ação rápida contra alguma célula que pode aparecer e provocar o câncer, ele irá agir desta maneira. E até para prevenção com pacientes de alto risco portadores de mutações hereditárias, para que eles utilizem algum procedimento como vacina para proteção contra o câncer", afirmou Cruz.
Mudança no padrão de tratamento
Seria uma vacina inovadora, específica, possivelmente em função da reação individual de cada paciente. O HPV (de colo de útero) já é um tipo de câncer prevenido com vacina. Por enquanto, a imunoterapia tem uma ação mais conhecida em casos graves como câncer de pulmão, que mata cerca de 1,3 milhão de pessoas ao ano (segundo o Inca) e melanoma já avançados. Trata-se de um processo no qual há a liberação do sistema imunológico para que ele combata as células cancerígenas.
"Quimioterapia gera toxicidade e, com a imunoterapia, são utilizadas drogas menos tóxicas que possibilitam com isso o uso prolongado para que se possa garantir ainda mais sobrevida ao paciente", afirmou Cruz.
Na imunoterapia, o próprio organismo se torna aliado do paciente, permitindo que o sistema imunológico ataque determinadas proteínas produzidas pelo câncer. Um novo medicamento, o Nivolumabe, foi testado em 582 pacientes com câncer de pulmão escamoso, aumentando a sobrevida, em alguns casos, de 9,4 meses para 19,4 meses, segundo o laboratório Bristol-Myers Squibb.
O medicamento, no estágio 3 de pesquisa, já está sendo comercializado nos Estados Unidos, segundo Franke. No Brasil, já é comercializado o Ipilimumabe, que combate outro tipo de proteína, a CTLA-4 (o Nivolumabe combate a PD-L1). Estuda-se também a combinação dos dois medicamentos.
Caminho a ser seguido
Há ainda muitas questões a serem desvendadas. Uma delas, segundo a ONG Cancer Research, é o desconhecimento, em longo prazo, das mudanças no sistema imunológico provocadas pelos medicamentos. Outra indagação busca desvendar mecanismos de resistência do organismo, que ainda limitam a duração da sobrevida.
O tratamento, no caso da utilização dos medicamentos voltados ao câncer de pulmão e melanoma, pode ter efeitos colaterais, autoimunes, como tireoidite, colite, inflamação intestinal e inflamação pulmonar, controláveis na maioria dos casos.
"A Asco 2015 entrou para a história do tratamento do câncer. Cada sessão do Congresso foi uma verdadeira plenária relativa à imunoterapia, em várias áreas. A imunoterapia já é um quarto pilar no tratamento do câncer, sendo uma alternativa para a quimioterapia, a radioterapia e a terapia alvo", ressalta Cruz.