O diabetes virou um dos maiores desafios de saúde pública do mundo.
Em 2024, cerca de 588,7 milhões de adultos entre 20 e 79 anos viviam com diabetes globalmente. As projeções da Federação Internacional de Diabetes (IDF) indicam que esse número pode chegar a 852,5 milhões até 2050.
No Brasil, o cenário é igualmente preocupante.
O país tem aproximadamente 20 milhões de pessoas com diabetes, o que representa cerca de 10,2% da população adulta, segundo o Vigitel do Ministério da Saúde.
Além disso, o Brasil ocupa o 6º lugar no mundo entre os países com mais pessoas com diabetes. A prevalência é maior entre idosos: nas capitais, sobe para 30,4% na faixa acima de 65 anos.
Nesse contexto, a metformina se consolidou como o tratamento central.
Ela é o remédio mais prescrito no mundo para o controle do diabetes tipo 2 e está em uso há mais de seis décadas. Estima-se que mais de 200 milhões de pessoas tomam metformina diariamente em todo o mundo.
No Brasil, a demanda acompanha esse cenário global: a metformina figura entre os medicamentos mais utilizados no mercado farmacêutico nacional, com múltiplas versões genéricas e alta concorrência entre fabricantes. Portanto, entender melhor como a metformina age no organismo vai muito além do controle glicêmico, como você verá a seguir.
A metformina é o tratamento de primeira linha para diabetes tipo 2
Nos últimos anos, pesquisadores passaram a investigar algo que vai além do controle do açúcar no sangue: será que esse medicamento também protege ossos e articulações?
Para quem vive com diabetes, essa pergunta é especialmente relevante, já que o risco de fraturas e osteoartrite é maior nessa população.
A seguir, você vai entender o que a ciência já descobriu e o que ainda está sendo estudado.
O que a metformina faz nos seus ossos
Vários estudos apontam que a metformina pode proteger contra osteoporose e redução da massa óssea. Além disso, pesquisas de genética que analisam relações causais entre medicamentos e doenças mostram associação entre o uso de metformina e menor risco de osteoporose, menor risco de fraturas e maior densidade mineral óssea em regiões como coluna lombar, colo do fêmur e calcâneo.
Por isso, uma grande pesquisa realizada em Taiwan identificou menor risco de osteoporose e fratura vertebral em pessoas que usavam metformina, com efeito ainda mais evidente após mais de dois anos de tratamento.
Da mesma forma, entre pacientes chineses com diabetes tipo 2, o uso do medicamento se associou a maior densidade óssea e menor prevalência de osteopenia e osteoporose, especialmente em mulheres.
No entanto, nem todos os estudos confirmam essa proteção contra fraturas.
Uma metanálise de estudos observacionais, por exemplo, não encontrou redução estatisticamente significativa no risco global de fraturas (RR aproximado de 0,91). Portanto, ainda há dúvidas sobre qual a dose ideal e por quanto tempo o medicamento precisa ser usado para gerar benefício ósseo.
Por dentro: como a metformina age no tecido ósseo
Em estudos experimentais, a metformina ativa uma via chamada AMPK, que estimula a formação de osteoblastos (células responsáveis por construir o osso) e inibe os osteoclastos (células que degradam o osso).
Além disso, o medicamento melhora a microarquitetura óssea e a densidade mineral em animais com diabetes tipo 2.
Metformina e osteoartrite: o medicamento protege as articulações?
Além dos benefícios ósseos, cresce o número de evidências de que a metformina também pode proteger a cartilagem e aliviar os sintomas da osteoartrite (OA), especialmente no joelho.
Esse efeito é particularmente relevante para pessoas com sobrepeso ou obesidade, que já apresentam maior risco de degeneração articular.
O que os estudos em humanos mostram sobre dor e função articular
Um estudo clínico randomizado publicado no JAMA testou metformina 2.000 mg/dia por 6 meses em adultos com sobrepeso ou obesidade e osteoartrite sintomática do joelho.
O resultado mostrou redução da dor significativamente maior do que o placebo, medida pela escala VAS (variação de -31,3 mm no grupo metformina versus -18,9 mm no placebo, com diferença entre grupos de -11,4 mm).
Outro ensaio clínico, também com pacientes obesos com osteoartrite de joelho, testou metformina 500 mg duas vezes ao dia em combinação com celecoxibe. Esse grupo apresentou melhoras expressivas em dor, rigidez e função avaliadas pelo questionário WOMAC em comparação com celecoxibe isolado (p<0,0001) ao longo de 12 semanas.
Adicionalmente, um ensaio clínico duplo-cego de 4 meses mostrou que a metformina melhorou de forma significativa a dor, as atividades diárias, a prática de esportes e a qualidade de vida em comparação com placebo, medidas pelo questionário KOOS.
Metformina e perda de cartilagem: o que os estudos revelam
Uma das descobertas mais relevantes vem de um estudo de coorte com indivíduos obesos com osteoartrite de joelho.
Nesse estudo, os usuários regulares de metformina tiveram perda anual de cartilagem medial de aproximadamente 0,7 a 0,8%, enquanto os não usuários perderam cerca de 1,5 a 1,6% ao ano. Ou seja, a perda de cartilagem foi quase a metade nos pacientes que usavam o medicamento.
Além disso, uma metanálise com 167.107 casos identificou menor incidência de osteoartrite de quadril e joelho em usuários de metformina, com redução de cerca de 43% no risco de artroplastia articular (cirurgia de substituição), especialmente em quem já tinha osteoartrite e usou o fármaco por mais de dois anos.
O que os experimentos em laboratório indicam sobre a cartilagem
Estudos em modelos animais reforçam esses achados clínicos.
Em diferentes modelos de osteoartrite em camundongos e ratos, a metformina reduziu a degeneração da cartilagem, diminuiu enzimas que destroem o tecido articular (como MMP-13 e ADAMTS-5) e atenuou a inflamação dentro da articulação (sinovite).
Esses efeitos foram observados inclusive em modelos ligados à obesidade e deficiência de estrogênio.
Como a metformina conecta diabetes, osso e articulação
Diabetes e osteoartrite compartilham dois processos em comum: inflamação crônica e desregulação metabólica. Por isso, faz sentido que um medicamento que age nesses dois processos possa beneficiar tanto o metabolismo quanto as articulações.
Nesse contexto, a metformina atua de diferentes formas:
Ativa a via AMPK, inibe o mTOR e reduz células pró-inflamatórias, favorecendo um ambiente mais anti-inflamatório nas articulações.
Pode reduzir os níveis de leptina em pessoas obesas, um hormônio relacionado à inflamação articular e danos na cartilagem.
Ajuda a corrigir o impacto da glicemia elevada sobre ossos e cartilagem, reduzindo a fragilidade óssea associada ao diabetes.
Limitações dos estudos: o que ainda não sabemos
Apesar dos resultados animadores, é fundamental entender o que ainda está em aberto.
Primeiro, muitos dados sobre ossos e osteoartrite vêm de estudos observacionais ou experimentais, que não permitem provar causa e efeito com a mesma força que ensaios clínicos robustos.
Além disso, ainda não há definição clara sobre qual a dose ideal e por quanto tempo o tratamento precisa ser mantido para gerar benefício articular ou ósseo.
Também é importante destacar que grande parte das análises genéticas utilizou amostras predominantemente europeias, o que limita a aplicação dos resultados para outros grupos populacionais.
Por fim, ainda são necessários ensaios clínicos maiores e de maior duração para confirmar os efeitos estruturais na cartilagem, além da simples melhora da dor.
O que concluir sobre metformina, ossos e articulações
A metformina, além de controlar o açúcar no sangue, mostra sinais consistentes de benefício para a saúde óssea, com redução do risco de osteoporose, melhora da densidade óssea e provável redução modesta de fraturas em pessoas com diabetes.
Ao mesmo tempo, cresce a evidência de que o medicamento pode proteger as articulações, especialmente o joelho, ao reduzir inflamação, preservar a cartilagem e aliviar a dor, sobretudo em pessoas com sobrepeso ou obesidade.
Contudo, o uso da metformina deve sempre ser avaliado e acompanhado pelo médico, levando em conta o diagnóstico de diabetes, o risco ósseo, a presença de osteoartrite e outros medicamentos em uso.
A ciência aponta um caminho promissor, mas ainda em construção, para enxergar a metformina como uma aliada integrada da saúde metabólica, óssea e articular.
Nota: Este artigo é baseado em pesquisas científicas publicadas e tem finalidade informativa. O uso da metformina deve ser sempre prescrito e monitorado por um médico.
Perguntas frequentes (FAQ)
O que é a metformina e para que ela é usada?
A metformina é um medicamento da classe das biguanidas, usado há mais de seis décadas como tratamento de primeira linha para diabetes tipo 2.
Ela age reduzindo a produção de glicose no fígado e melhorando a sensibilidade das células à insulina.
Além do controle do açúcar no sangue, pesquisas recentes investigam seus possíveis benefícios para ossos, articulações e outros sistemas do organismo.
Quem tem diabetes tem mais risco de ter osteoporose ou osteoartrite?
Sim. Pessoas com diabetes tipo 2 apresentam maior risco tanto de fraturas ósseas quanto de osteoartrite, especialmente quando associadas à obesidade.
Isso acontece porque a hiperglicemia crônica afeta negativamente a qualidade do osso e da cartilagem, além de favorecer um estado de inflamação de baixo grau que danifica as articulações ao longo do tempo.
A metformina protege os ossos contra osteoporose?
Vários estudos, incluindo análises genéticas e pesquisas de coorte em Taiwan e na China, mostram associação entre o uso de metformina e maior densidade óssea, menor risco de osteoporose e menor risco de fratura vertebral.
O efeito parece ser maior após mais de dois anos de uso. Porém, uma metanálise não encontrou redução significativa no risco global de fraturas (RR aproximado de 0,91), o que indica que o benefício pode variar conforme a população e o tempo de uso.
A metformina alivia a dor no joelho causada pela osteoartrite?
Sim, há evidências clínicas que apontam nessa direção. Um estudo publicado no JAMA mostrou redução de dor no joelho com metformina 2.000 mg/dia por 6 meses em adultos com sobrepeso e osteoartrite sintomática, com diferença de -11,4 mm na escala VAS em relação ao placebo.
Outros ensaios clínicos também registraram melhoras em dor, rigidez e função física, especialmente quando a metformina foi usada em combinação com anti-inflamatórios.
A metformina pode reduzir a perda de cartilagem no joelho?
Dados observacionais e experimentais sugerem que sim. Em um estudo de coorte com pacientes obesos e osteoartrite de joelho, usuários de metformina perderam cerca de 0,7 a 0,8% de cartilagem medial por ano, enquanto não usuários perderam 1,5 a 1,6%.
Uma metanálise com mais de 167 mil casos também apontou redução de aproximadamente 43% no risco de cirurgia de substituição articular entre usuários do medicamento. Contudo, ensaios clínicos maiores ainda são necessários para confirmar esses efeitos.
Como a metformina age nas articulações e nos ossos?
A metformina ativa uma via metabólica chamada AMPK, que estimula as células formadoras de osso (osteoblastos) e inibe as que degradam o osso (osteoclastos). Nas articulações, ela reduz células pró-inflamatórias, diminui enzimas que destroem a cartilagem (como MMP-13 e ADAMTS-5) e pode reduzir os níveis de leptina, hormônio relacionado à inflamação articular em pessoas obesas.
Tudo isso contribui para um ambiente mais favorável tanto para o osso quanto para a cartilagem.
Posso tomar metformina para proteger meus ossos e articulações mesmo sem ter diabetes?
Não.
O uso da metformina fora das indicações aprovadas deve ser sempre avaliado e prescrito por um médico. Os estudos sobre ossos e articulações foram realizados principalmente em pessoas com diabetes ou obesidade, e ainda não há evidência suficiente para indicar o medicamento especificamente para fins ósseos ou articulares na população geral.
Qualquer decisão sobre o uso da metformina deve ser individualizada e acompanhada por um profissional de saúde.
A metformina tem efeitos colaterais?
Os efeitos colaterais mais comuns são gastrointestinais, como diarreia, náusea e desconforto abdominal. Eles geralmente são leves e transitórios, ocorrendo com mais frequência no início do tratamento.
Nos ensaios clínicos sobre osteoartrite, não foram relatados sinais graves de segurança. Pessoas com doença renal devem ter atenção especial, pois a metformina pode se acumular no organismo nessa situação. Por isso, o acompanhamento médico regular é essencial.