Se a tireoide trabalha em ritmo acelerado, o organismo inteiro padece. Saiba como esse problema deve ser investigado e controlado.
Se pudéssemos comparar nosso corpo a um carro, a tireoide teria uma função dupla: atuaria ao mesmo tempo como freio e acelerador. Afinal, ela é responsável por ditar a velocidade do metabolismo e garantir que todos os processos estejam dentro de um compasso.
Sabe o que acontece quando essa glândula perde as estribeiras e acelera feito maluca? Pois isso é o que ocorre durante o hipertireoidismo, marcado pela produção excessiva dos hormonios tireoidianos T3 e T4, substâncias que determinam o ritmo de funcionamento de todas as células, da cabeça aos pés.
Calcula-se que esse problema, caracterizado por taquicardia, diarreia, queda de cabelo, tremores e insônia, atinja 1,5% da população mundial. Dá algo em torno de 2,5 milhões de brasileiros. De olho na condição, a Associação Americana de Tireoide (ATA) acaba de atualizar suas recomendações de detecção e tratamento.
Diagnóstico
Para descobrir se uma pessoa está com a disfunção, uma simples amostra de sangue basta. Ela serve para medir os níveis do T4 livre e do TSH, um hormonio fabricado no cérebro que estimula a glândula. Se o primeiro estiver elevado e o segundo baixo, tudo leva a crer que seja hipertireoidismo.
Antigamente, para revelar a causa, era necessário lançar mão de exames de imagem, como a cintilografia. Agora, a ideia é priorizar a procura pelo anticorpo TRAb na circulação por meio de um teste de sangue. "A presença dessas moléculas sinaliza uma origem autoimune, ou seja, são as próprias células de defesa do organismo que estão agredindo a tireoide", esclarece o endocrinologista Cleo Otaviano Mesa Junior.
Nesses casos, o hipertireoidismo recebe o nome de doença de Graves. Porém, se o TRAb não der as caras, os vilões são outros: agentes químicos, medicamentos e até infecções podem estar por trás do perrengue.
Tratamentos
Na doença de Graves, o contra-ataque costuma envolver os remédios metimazol ou propiltiouracil. Os dois impedem a ação de T3 e T4 ao inibir uma enzima primordial nesse processo. É preciso tomar de um a quatro comprimidos diariamente por dois anos ou mais.
"Passamos a reconhecer que a prescrição dessas drogas por um prazo maior é uma opção para certos pacientes, uma vez que os efeitos colaterais geralmente se dão nos primeiros 120 a 180 dias", justifica o endocrinologista Douglas Ross. Os betabloqueadores ajudam a reduzir os batimentos do coração e a regular o intestino, sendo utilizados na fase inicial.
Quando a doença não tem origem autoimune ou o indivíduo deseja uma solução rápida, é possível recorrer a outros métodos: aplicação de iodo radioativo, que destrói a glândula, ou cirurgia de remoção total. "Se escolhermos um desses meios, o paciente precisa saber que tomará comprimidos do hormonio artificial pelo resto da vida", informa o endocrinologista Geraldo Medeiros Neto.
Hipertireoidismo na gravidez
A nova diretriz reserva um belo espaço para discutir as particularidades do hipertireoidismo durante os nove meses de gravidez. Na maioria das vezes, a subida do T4 é vista com naturalidade, pois o bebê só desenvolve sua própria glândula após o segundo trimestre.
"É normal que o TSH da gestante esteja próximo a zero", nota a endocrinologista Danielle Macellaro. A situação muda de figura se a mulher tem hipertireoidismo antes de engravidar. "O ideal é procurar um tratamento prévio e deixar a tireoide bem ajustada para só depois iniciar as tentativas de conceber uma criança."
O hipertireoidismo na gestante traz um aumento no risco de parto prematuro, aborto espontâneo, pré-eclâmpsia, insuficiência cardíaca materna e baixo peso ao nascer. Estudos da Universidade de Aalborg, na Dinamarca, encontraram relações entre a disfunção na glândula e problemas neurológicos: convulsões, esquizofrenia, déficit de atenção e diminuição de QI nos filhos.
Cigarro só piora as coisas
Para quem tem hipertireoidismo, o cigarro é ainda pior. A inflamação provocada pelo fumo potencializa uma complicação, a orbitopatia de Graves, em que as camadas atrás dos olhos incham e empurram os globos oculares para a frente. "Além disso, o cigarro atrapalha o tratamento do problema na tireoide", alerta Mesa Junior.
3 tratamentos para hipertireoidismo
Remédios: preferido na doença de Graves, de fundo imunológico. As drogas bloqueiam a produção de T3 e T4. O uso é contínuo por até dois anos.
Iodo radioativo: indicado quando as chances de controle com medicamento são baixas, os níveis de hormonio estão muito elevados ou há protuberâncias no pescoço.
Cirurgia: é a menos utilizada. Serve usualmente para pacientes graves, com inchaços grandes no pescoço ou com os hormonios bem desregulados.