A crítica refere-se à liberação da fosfoetanolamina no Senado. Os primeiros testes com as cápsulas já mostraram que a substância é ineficaz no tratamento das células cancerígenas.
O Senado aprovou o projeto de lei que autoriza o paciente oncológico a usar a fosfoetanolamina sintética, substância conhecida popularmente como pílula anticancer. O projeto, que segue para sanção da presidente Dilma Rousseff, foi bastante criticado por especialistas da área de oncologia.
"A decisão dos legisladores desmoraliza o Ministério da Saúde, a Anvisa, a ciência e o país. É uma medida baseada em pressão pública e não técnica. Vamos continuar lutando para que os pacientes tenham uma saúde melhor e não que coloquem vidas em risco", diz Gustavo Fernandes, presidente da Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica (Sboc).
A decisão é ainda mais grave, pois veio depois da liberação dos resultados dos primeiros testes realizados pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), que mostraram que em testes in vitro a pílula do câncer não apresenta eficácia contra células cancerígenas. Os cinco primeiros relatórios revelaram que a substância não é pura, contrariando o que afirmavam seus criadores.
"A informação era de que a fosfoetanolamina era pura, mas há cinco componentes na cápsula. Os resultados preliminares mostram que a fosfoetanolamina não tem atividade contra o câncer", diz Luiz Carlos Dias, professor titular do Instituto de Química da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), que atuou na pesquisa do MCTI.
Segundo Dias, a quantidade de fosfoetanolamina na composição da substância é de apenas 32,2% e o outro componente da fórmula, chamado monoetanolamina, apresentou capacidade de reduzir a proliferação de células com câncer. "Um dos componentes tem uma pequena atividade, mas é muito marginal, menor do que a apresentada por tratamentos convencionais."
Outro ponto preocupante, segundo o pesquisador, foi o fato de as cápsulas não apresentarem a mesma quantidade de substância em cada uma delas. Enquanto o rótulo indicava que deveria haver 500 mg por cápsula, em 16 amostras pesadas a quantidade variava de 233 miligramas a 368 miligramas.
Presidente da Oncoguia, organização não governamental que oferece apoio e orientação para pacientes com câncer, Luciana Holtz diz que a decisão do Senado não deve ser comemorada e cobra atenção para outras questões relacionadas à doença.
Auro del Giglio, chefe do Departamento de Oncologia Clínica do Instituto Brasileiro de Controle do Câncer (IBCC), diz que a medida pode atrapalhar o tratamento, visto que pacientes podem trocar medicações tradicionais pela pílula, mas que os profissionais podem impedir isso.
A fosfoetanolamina sintética é uma substância criada pelo professor aposentado Gilberto Chierice, do Instituto de Química da Universidade de São Paulo (USP) de São Carlos, e distribuída há mais de 20 anos sem autorização da Anvisa.