Cientista responsável por estratégias globais para vacinas pediátricas contra poliomielite, difteria, coqueluche e tétano fala sobre o papel primordial da imunização no controle de diversas doenças.
A médica belga Linda Hanssens, diretora da área de vacinas pediátricas da farmacêutica GSK, esteve no Brasil para participar de algumas conferências e conversou sobre o desafio de estudar e lançar novos imunizantes.
Quais são os maiores desafios na produção de vacinas?
O grande desafio está justamente em desenvolver novas vacinas. A pesquisa leva entre dez e 15 anos, se contarmos o período entre os estudos iniciais e a liberação pelas agências regulatórias. E quanto mais complexa a doença que estamos lidando, mais intricado será o processo. As agências regulatórias também exigem muitos dados e ensaios clínicos para a aprovação.
Nos últimos anos, surgiram algumas epidemias preocupantes, como zika e ebola. Como fica a criação de vacinas para essas doenças?
Em primeiro lugar, é difícil prever quando e como acontecerão essas epidemias. Então fica complicado fabricar vacinas a tempo. Nós não sabemos quais doenças realmente vão virar grandes problemas de saúde pública. Para isso, precisamos criar estratégias e ter algumas prioridades.
Como explicar o aumento dos casos de coqueluche mesmo com vacina disponível?
Existem algumas razões. Em primeiro lugar, os métodos de diagnóstico estão mais eficientes. Também há a questão de as cepas se modificarem de tempos em tempos. Além disso, nós sabemos que a vacina não protege por toda a vida. Daí a importância de conscientizar a população sobre a imunização. Devemos procurar o médico para receber orientações sobre doses de reforço.
Homens e mulheres que planejam ter filhos devem ficar atentos às suas carteirinhas de vacinação?
Com certeza. A primeira coisa é se valer dos imunizantes que o indivíduo ainda não tomou e atualizar as doses de reforço. Assim, você impede a transmissão de alguns vírus e bactérias para o recém-nascido. Os futuros pais e mães devem ter certeza de que estão com a carteirinha de vacinação em dia.
A poliomielite tem duas versões de vacina, uma é mais eficiente que a outra?
Não, as duas têm um grau alto de eficácia e foram importantíssimas para erradicar a poliomielite em boa parte do planeta. No momento, vários países estão mudando o seu esquema de vacinação e abandonando aos poucos a vacina oral para utilizar somente as versões injetáveis.
Há alguns anos, surgiram teorias da conspiração que acusavam vacinas de causarem doenças. Isso prejudicou o esquema de imunização em alguns países?
Com certeza nós tivemos um impacto inicial, especialmente em nações europeias. Mas a verdade é que as pessoas não veem doenças como poliomielite, tétano e difteria no dia a dia, como seus avós tiveram que enfrentar. Isso é sinal de que as vacinas são realmente efetivas e tiveram um papel decisivo no controle de diversos problemas. Para que a conscientização sobre elas continue alta, temos que insistir na importância da vacinação em todas as fases da vida.