A correlação entre dietas restritivas com maior longevidade e menor risco de doenças como o câncer é uma questão relativamente recente.
Há alguns dias conheci a história de Herschel Walker, campeão americano de MMA, que, aos 55 anos, declara que diariamente faz 1.500 apoios, 1.500 abdominais, uma corrida de velocidade seguida de uma mini-maratona, movido a apenas uma saladinha, sopa e pão no jantar. Sem café da manhã, sem almoço, sem barras de cereais ou chocolates.
Ainda que difícil de acreditar, há muitas pessoas que conseguem manter atividades físicas particularmente intensas sem grandes ingestas calóricas. A correlação entre dietas com restrição calórica e menor índice de massa corpórea, com maior longevidade e menor risco de câncer, diabetes e doenças cardiovasculares, é uma questão relativamente recente.
A relação entre câncer e massa corpórea
No caso específico do câncer, os estudos associando índice de massa corpóreo e risco para câncer datam dos anos 70 e 80, mas com metodologias muito questionáveis. Eu aprecio, especialmente, os estudos realizados em pessoas portadoras de mutações genéticas que predispõem a câncer.
Um estudo holandês e um britânico recentes em portadoras de mutação em BRCA1 e 2 (mesma mutação da atriz Angelina Jolie) mostram uma redução de um terço no risco de câncer em indivíduos com peso levemente abaixo ou igual ao IMC esperado.
Os estudos que avaliaram puramente a restrição calórica com risco para câncer são abundantes em animais. Uma meta-análise de 2014 publicada no periódico online PLOS One mostra que o risco de câncer reduz-se bastante em animais subalimentados do que naqueles superalimentados.
Restrição calórica e longevidade
No que diz respeito à longevidade, a questão ainda é mais curiosa. A hipótese dos pesquisadores de Oklahoma é que indivíduos que se alimentam menos guardariam uma memória menor de fome. Esta memória de fome e de uso de diversos componentes calóricos passaria por uma modificação genética promovida pelo próprio ambiente. Algo que chamamos de epigenética.
Efeito genético
Os camundongos mantidos em dietas restritivas tiveram seu perfil genético analisado de forma periódica e alguns genes, especialmente o gene do receptor da neurotensina 1, foram detectados em níveis progressivamente elevados. Genes como a neurotensina 1 têm efeitos diferentes em muitas células, mas no cérebro, estes genes são importantes reguladores no hipotálamo, um local-chave para o controle das sensações de fome e saciedade.
O resultado disso é que estes camundongos adequam-se a dietas cada vez menos calóricas e perdem a memória da fome, o que talvez tenha sido o maior motor de nossa sobrevivência como sapiens sapiens. Em uma era nunca vista de prolongada abundância de calorias de fácil utilização como a nossa, a manutenção dos níveis de neurotensina, entre outros programas genéticos que estimulam a busca constante de nutrientes, talvez seja uma das explicações do aumento dos casos de obesidade e secundariamente, de câncer.
Pesquisadores do Vale do Silício, dentro de um projeto chamado Encode, já estão buscando entender melhor sobre como modificar a nossa programação genética, ou epigenética, para poder explicar sobre o efeito de padrões de vida sobre nosso DNA.